Refugiados sofrem com o frio intenso na Europa

Compartilhe!

Ainda estava sob escaldantes 40ºC quando desejava um pouco de frescor. Não faz muito tempo. Na minha cabeça, menos de dez anos que ainda andava com um caderninho na mão, uma caneta, muito protetor solar em busca de uma história para contar. Foram muitas e eu sempre acho que meus personagens mereciam uma descrição melhor.

Há um certo fascínio em contar histórias dos outros e uma dose de privilégio que alguns jornalistas conseguem viver. Apenas alguns e o verbo é viver mesmo. A história do outro, quando bem contada, sempre tem um pouco do narrador. Tenho saudades de narrar histórias. Não tenho saudades do calor escaldante que era o cenário de muitas delas.

Com aquele caderninho na mão, trocando olhares de cumplicidade com o fotógrafo e o motorista da equipe, havia muitas perguntas na cabeça. Uma delas era o porquê de tanto calor no Centro-Oeste, onde vivi a maior parte da vida.

localização geográfica, a prática do desmatamento, das queimadas irregulares e da falta de planejamento urbano sempre faziam sofrer mais os que menos tinham chances de se defender. Naquela época, não faz muito mesmo, pensava que o sofrimento pelo excesso de calor era algo inevitável.

Imigrantes após resgate em Málaga, Espanha
São refugiados, são pobres, são desprovidos de direitos mínimos, como o de viver. Foto Reprodução.

Inverno europeu judia dos refugiados

Hoje, quando vejo as notícias sobre os termômetros nas alturas, quase já sem dígitos suficientes para marcar tamanho calor, percebi que não. Distante uns 10 mil quilômetros da cidade que tem apelido de Morena, eu tenho passado algum frio. A onda de frio já matou 65 pessoas na Europa em 2017. São tantas as explicações para o fenômeno climático, que preferi ficar com a óbvia: isso é sazonal.

Simplifico porque não compreendo dos elementos que fazem com que o planeta altere os movimentos da órbita excêntrica e alterne eras glaciais. Creio ser melhor simplificar porque o globo terrestre e a interação com o universo não são os responsáveis pelo que acontece sobre ele.

Prefiro simplificar o entendimento sobre o frio cortante, mas não consigo compreender as imagens das pessoas em imensas filas por um pedaço de pão. É assim mesmo. É uma guerra. São refugiados, são pobres, são desprovidos de direitos mínimos, como o de viver.

refugiados-sofrem-com-o-frio-na-europa-clube-das-comadres4
Na Europa, há milhares de refugiados de guerra a padecer de fome e, neste inverno, de um frio que os faz desejar o calor do inferno clichê. Foto Reprodução.

Todo mundo sabe ou deveria saber, que na Europa há milhares de refugiados de guerra a padecer de fome e, neste inverno, de um frio que os faz desejar o calor do inferno clichê. Eu digo clichê, com calor por todo lado, labaredas e pessoas com pouca roupa usando um leque e tentando negociar com o capeta uma pena mais amena. 

No inferno do inverno europeu, as pessoas não têm roupas o suficiente para a devida proteção. Sentem dor, porque frio dói. E essa não é uma mera condição econômica. Não são pessoas que não sabem pescar e, assim, perderam a corrida da meritocracia.

Nesse inferno gelado, os governantes europeus ainda não têm a resposta para amenizar a dor das vítimas do capital, das disputas econômicas, das demonstrações imperialistas. E a onda de frio, talvez causada por uma massa polar escandinava, não parece sensibilizar a política. 

refugiados-sofrem-com-o-frio-na-europa-clube-das-comadres2
Aqui, há gente elegante que oferece chá gratuito para quem está sem abrigo. Foto Reprodução.

Até me culpo. Precisaria agir!

Na Grécia, os refugiados congelam em barracas e o inverno está somente no início. Há muita neve por cair. Deslocados de sua terra natal por quem dorme em um cama quente e confortável, lutam somente por sobrevivência. Por enquanto, o que basta é sobreviver.

Enquanto a neve enfeita as barracas lotadas de crianças assustadas, organismos e governos discutem estratégias para evitar mais mortes. Discutem em gabinetes climatizados, longe da hipotermia, das pneumonias e da agonia. Discutem lentamente, afirmou em nota a Anistia Internacional.

São tantos os contornos das guerra que afetam Síria e África e tanto é o frio que evidencia uma de suas faces mais cruéis. Frio mata. Aqui, até me culpo. Precisaria fazer algo mais que olhar fotos, ler notícias e lamentar. Precisaria agir.

refugiados-sofrem-com-o-frio-na-europa-clube-das-comadres7
Há associações de voluntários e há estabelecimentos comerciais com uma inscrição direta: “se tem frio, entre e tome um chá quente”. Foto Reprodução.

Meu consolo é saber que há pessoas que não são como eu. Elas não ficam espantadas diante das notícias e das fotos a discutir o porquê da guerra, dos fabricantes de armas, do poderio dos bancos. Elas agem. Foi assim que descobri o óbvio: o frio deixa as pessoas (algumas) mais elegantes.

Em Portugal, onde vivo, o frio não é comparável aos 25 graus negativos registrados na Bulgária, Montenegro, Croácia, Sérvia, Bósnia, Roménia e República Checa. Menos ainda aos 30 graus abaixo de zero que afetaram a Polônia.

Aqui, os termômetros marcam 1 e 0 grau. Aqui, não há neve em todas as cidades. Aqui, há gente elegante que oferece chá gratuito para quem está sem abrigo. Nem te olham, não te julgam, apenas servem. Acreditem, testei. Há associações de voluntários e há estabelecimentos comerciais com uma inscrição direta: “se tem frio, entre e tome um chá quente”.

refugiados-sofrem-com-o-frio-na-europa-clube-das-comadres3
Estações do metrô foram adaptadas com camas, banheiros e espaços para o café da manhã. Foto Reprodução.

Voluntários oferecem café, almoço, roupas…

Em uma delas, muito próxima à minha casa, voluntários se revezam oferecendo de tudo um pouco. Café da manhã, almoço, roupas, aconchego. Esse é o modelo básico e que não está disponível somente entre voluntários. O poder executivo, após os alertas de baixas temperaturas, arquitetou uma forma de atender os moradores de rua, aqui chamados sem abrigo.

Estações do metrô foram adaptadas com camas, banheiros e espaços para o café da manhã. Um hospital desativado vai abrir as portas para acolher quem não tem onde dormir. Quando soube disso, peguei o caderninho e escolhi a melhor caneta. Pensei em colher uma história ou outra como forma de ilustrar o resultado do trabalho.

Não consegui ou não foi preciso. Não sei. Desisti da ideia de jornalista quando um homem passou por mim sorrindo e tateando o piso com uma longa bengala. Eu me contorcia de frio, uma prova de que preciso aprender a me agasalhar melhor e ele sorria satisfeito com o café da manhã, casaco, luvas e cachecol limpos e quentes. Ele sorriu e eu compreendi que a história nem sempre precisa ser verbalizada.

refugiados-sofrem-com-o-frio-na-europa-clube-das-comadres6
Um hospital desativado vai abrir as portas para acolher quem não tem onde dormir. Foto Reprodução.

Lembrei dos mortos de frio, pensei que é possível evitar, ainda que isso implique não fazer guerras e forçar deslocamentos. Lembrei, principalmente do Brasil, onde a onda de calor incomoda, mas não mata. Lembrei que os 40 graus podem não ser amenizados, mas há como valorizar os impostos pagos e servir o cidadão. Lembrei que a solidariedade também é farta por lá e por todo o país, tanto como aquela que aquece e alimenta os moradores de rua ou refugiados no Velho Continente.

O frio na Europa continuará intenso e até mortal para alguns. Chegar até aqui, sem ter uma conclusão para fechar esse assunto, é prova de que muito está para vir. E que a elegância de alguns que se dispõem para amenizar o desconforto alheio foi a melhor história a ser contada.

 Veja também:


sandra-luzSandra Luz é jornalista e reside no Porto, a cidade invicta de Portugal. Atua há duas décadas com a produção de conteúdo jornalístico. Trabalhou em meios digitais, como o site Campo Grande News (www.campogrande.com) e na formulação do site do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Atua na produção e gestão de conteúdo em Portugal, onde faz doutorado em Ciências da Informação pela Universidade Fernando Pessoa. E-mail: [email protected]



 

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *